A série "Adults", da FX, estreou em 28 de maio de 2025 em meio a recepção morna por parte da crítica especializada. Semanas depois, porém, o cenário mudou: um novo episódio-piloto foi reeditado e disponibilizado em plataformas de streaming, e a partir daí o programa passou a conquistar tanto público quanto resenhas elogiosas. Esse movimento de virada levanta uma questão maior sobre o estado atual da comédia televisiva e por que tantas sitcoms recentes não conseguem repetir esse feito.
O cansaço do formato mockumentary
Produções como "The Paper" e "St. Denis Medical" seguem a fórmula de falso documentário popularizada por "The Office", mas sem renovar a proposta original. O problema não está na falta de criatividade dos roteiristas, e sim na decisão de estúdios e produtoras de explorar à exaustão uma fórmula que já deu certo antes. O que tornou "The Office" um fenômeno foi justamente sua ousadia em experimentar um formato pouco explorado na época, construindo conexão genuína com o público ao retratar a rotina de trabalho com humor e verdade. Repetir essa estrutura sem inovação, como fazem seus sucessores recentes, tende a soar vazio.
O retorno do humor absurdo
"Adults" caminha em direção oposta, resgatando um estilo de comédia que parecia ter perdido força em meados da década de 2010: o absurdismo. Essa vertente, também chamada de humor surreal, aposta em situações, personagens e diálogos deliberadamente ridículos ou sem lógica aparente - recurso central em clássicos como "It's Always Sunny in Philadelphia" e "Community". Ambas as séries usaram esse recurso não apenas para divertir, mas para expor questões sociais e desafiar expectativas sobre comportamento e normalidade, criando um vínculo duradouro com o espectador.
Curiosamente, essas três produções compartilham outro ponto em comum: estreias discretas em termos de audiência. "Community" começou com cerca de 7,5 milhões de telespectadores, "It's Always Sunny" com 1,5 milhão, e "Adults" com números ainda mais modestos no streaming. Com o tempo, no entanto, tanto "Community" quanto "It's Always Sunny" conquistaram um público cult entre a Geração Z, muito tempo depois de suas estreias originais.
Por que a Geração Z se identifica agora
Criada sob constante estímulo digital e acostumada ao consumo de conteúdo de curta duração, a Geração Z desenvolveu um processamento mais rápido de informação - o que torna estruturas tradicionais de sitcom previsíveis demais. Programas que subvertem expectativas e rompem com padrões narrativos convencionais despertam mais interesse do que comédias de ritmo mais pausado. É exatamente o que "Adults" faz com eficiência: uma das tramas mais comentadas da primeira temporada, envolvendo o personagem Anton e sua amizade inesperada com um golpista do bairro, resume bem esse tom irônico e de distanciamento afetivo tão característico do humor dessa geração.
Segunda temporada confirma a identidade da série
A segunda temporada de "Adults" estreou em 27 de agosto, novamente recebendo avaliações positivas por consolidar a voz própria do programa. Enquanto isso, "St. Denis Medical" e "The Paper" continuam sem repetir esse sucesso - não por falta de competência técnica, mas por não dialogarem com as nuances culturais dessa audiência mais jovem. "Adults" soube entender o absurdismo como linguagem genuína da Geração Z, adaptando ritmo e construção de piadas ao universo do conteúdo rápido e fragmentado que essa geração consome diariamente. Ao desafiar os moldes clássicos da sitcom, a série criou algo singular - e, aparentemente, encontrou o caminho certo para se firmar.